TEXTOS DE MOITA MACEDO

B.I.

Nasci no dia 17 de Outubro de 1930, em Benfica do Ribatejo, às 3 horas da manhã e deram-me o nome de José Albano Pontes Santos Moita Moraes de Macedo. Depois disso muito outros nomes me têm chamado.
Sou nativo do signo Balança. Cumpri o serviço militar no Continente e Lá. Trabalho há mais de 23 anos numa grande empresa industrial. Sei de homens que morreram e de outros que ficaram estropiados no trabalho e na guerra – isso conto. Como pintor tenho trabalhos em colecções nacionais e estrangeiras. Isto é tudo.

Moita Macedo in Cantares de Amigo | Almada | 1983 | p.69



Se o espírito evolui e racionalmente escolhemos um caminho, se procuramos um meio de expressão coerente com a chamada verdade própria, integrada no absoluto dos «espaços-coisas» que nos rodeiam, se procuramos ser livres apesar de nós mesmos, transcrevendo um mundo antevisto e recriado através de convictas presenças (ou mesmo ausências) de cores e formas sem a preocupação do aparente, está fora de dúvida que começamos a exprimir-nos na linguagem do informalismo.

Porém, por mais despojados que estejamos do desejo de tudo o que se assemelhe a uma representação do real aparente (realidade só visual), por vezes no espírito e na mão, continuam a subsistir-nos formas memoriais de um mundo concreto, e de emocionalismos tradicionais.

Por vezes, são talvez simples recordações de um caminho antes percorrido (ainda que por outros), o tal teima em existir no nosso subconsciente…

É a esta extemporânea libertação de memória, à sua presença-marca sobre uma base de sustentação, que eu chamo - na falta de lhe saber dar melhor nome – memografismo.

Lisboa | 1973



Magnates, megalómanos, ideias importadas, a revista das revistas estrangeiras, os sucessos da parede, as necrologias escritas nos museus e nas galerias. Autêntico foi o período que houve na pintura portuguesa, quando realmente os pintores foram para a rua e pintaram murais. Então sim, então tinham uma razão de ser, e talvez constituíssem uma tradição na pintura portuguesa.

Alguns nomes esperaram pelos séculos, em qualidade, em quantidade, não sabemos, tudo continua na mesma. Maníacos, megalómanos e outros «ómanos» que nem humanos sabem ser.

O homem pintor fala da sua pintura, é sempre um auto-elogio, sou contrário dos auto elogios. Falo da espécie de pintura que já foi consignada por Kandinsky. Um automatismo que em 1973 eu definia como memografismo, aquilo que teimosamente nos fica na memória. Os caminhos que percorremos, e os caminhos que recusámos, a nossa teimosia, os nosso amigos, a forma de poema daqueles que admiramos, a forma da escrita daqueles que também admiramos.

Um homem é sempre o retrato de outro homem. Traço, risco, mancha, macacada, coo muitas vezes lhe chamam, a pintura continua a ser a minha, o retrato de mim mesmo. Talvez por isso não seja uma pintura bonita, talvez não seja uma pintura que impressione as pessoas…

É, e tem uma expressão, um extroverter de mim mesmo.

Lisboa | 1982



Feliz é o ser humano que acredita no bom trato, no contacto fraterno com os outros seres duma mesma humanidade, mau grado de formas de ideologia ou «estar social» diferentes, mas que conserva gostos e tendências próprias no respeito dos outros.

Família, região, país, mundo antes do mais têm de ser um primário relacionamento entre o eu e o outro, na forma de um caminho colectivo que se pretende (quando Homem) proposta para o progresso e bem estar de um todo.

Não sou eu, nem comigo nasce a tentativa de aproximação artística/público num sítio de comes e bebes, mas esta mostra, que pretendo, do que faço e sinto, é feita como mais um desafio às regras estabelecidas da maneira de ser e estar do artista (neste caso homem/pintor) face a um mundo de lugares de lugares «próprios» e sofisticados. Casas de luxo.

O local momento desta mostra é aquele em que normalmente almoço, numa Adega, palavra forte e significativa do vocábulo português. (…)

Assim, o desenho/pintura, memória e futuro da minha forma de ser e estar, são o testemunho do meu acreditar na liberdade pessoal de expressão, direito inalienável de todos os homens, sem diferenciação de lugares.

Se não gostarem do que mostro, fixem os olhos a comida, para isso vêm a esta casa e não é a minha pintura que irá alterar o seu sabor pelo bom ou mau gosto do aproveitamento que faço destas paredes. Mas se sentirem um travo amargo ou esquisito no aspecto dos pratos-pintura que hoje sirvo na Adega do Zé da Rosa, isso só será do Moita de Macedo.

O colorido e os motivos são vários mas comuns e da responsabilidade do pintor, neste aparente abstracto onde pinto e digo o concreto cinzento dos dias incertos.

Lisboa | 1982



Porquê Setúbal?

As cidades-mar são diferentes de todas as outras.

Porque o mar pode contar-se numa tela apontada a traços e cores, tal como podemos ouvir as suas falas através de música dos seus coros.

Pensar mar é contar histórias imemoriais ao tempo cronometrado do ontem e hoje, pois ele não é substantivo ou adjectivação, mas multiplicidade de sentir e estar, em que cada momento se recria e redescobre em calma ou furor, vida e morte destino de homens e coisas.

Às vezes espírito. Às vezes gesto. Às vezes conto.

A fome e a fartura, fortunas e derrotas foram componentes do nascimento ou da destruíçãode muitas cidades-portos, algumas vezes na só modificação de cotas e molhes, outras no universalizar as gentes e pedras por desgaste ou tenacidade de uma forma de cultura.

Não pintei Setúbal, mas o Mar-Setúbal-Algures, pois desta terra não sei mais do que a história dos guias de turismo.

Aqui a vedeta é o Mar e o mar é também a cidade, e o desafio à música-palavra ao traço cor em que me dou.

No Coral Luísa Todi o espaço abrigo cedido ao meu gesto esbracejado.

As palavras, os olhos e o canto, são os Vossos.

Lisboa | Outubro 1982